Só quando abri a porta lembrei-me que já lá não estavas. Ainda tinha o cheiro. Cadáveres doces putrefactos, com ligeiro toque de chá preto. Uma agradável combinação para nunca esquecer. Não levaste a velha boneca de trapos, pois ela ainda permanece no canto mais escuro, com aquele sorriso assombrado, no seu jeito mais melancólico.
Abri a janela, pois lá fora estava uma luz e tudo era claro. Mas quando entrou tornou tudo mais turvo, como que nevoeiro que trespassou o quarto. Estranha luz aquela que ainda mais dificulta a visão das coisas. Tudo ficou numa cor estranha. Abri o armário e vi a minha roupa, que enegreceste, não havia nenhuma cor. Ainda bem. Agora não conseguiria suportar nem acreditar nesses contos de fadas. Sou uma descrente. Sou uma herege, como alguém me chamou. Não interessa, essa foi a tua herança, a que me deixaste. Olhei um pouco mais para a roupa e não me importei com a cor. A minha vingança foi ter enegrecido também um pouco mais a tua.
Consigo sentir o cheiro de sangue coagulado no chão, o que me faz nascer morcegos no estomâgo. Também não importa... Aconteça o que acontecer seremos eternos.
Vi o tecto e reparei que tiraste as aranhas das teias... Obrigada.
No jazigo que é o meu coração, estás num caixão do lado direito, o primeiro a contar de cima. Pessoalmente, não gosto do cetim que escolheste.
Tropecei em várias coisas no chão do quarto, porque andava à procura de algo que tivesses deixado. Não encontrei. É pena.
Mas o que interessa é que foste embora.
(recordar é viver xD)
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Adeus
Publicada por Children of the korn à(s) 21:40
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