domingo, 7 de março de 2010

Xadrez

A Joana lançou o primeiro peão. O Carlos concentrou-se para tentar antever o desenrolar do jogo. Meti as mãos nos bolsos enquanto via as suas jogadas, e algo ecoava dentro da minha cabeça, mas não soube o quê. Tentei vagamente perceber, mas acabei por desistir. Na verdade não queria vasculhar dentro dos meus pensamentos. O tabuleiro foi ficando com menos peças, e apenas me consegui mexer para fumar um cigarro. O Carlos falou sobre qualquer coisa de batalhas e jogos de Xadrez e lembrei-me de algo relaccionado com o desenrolar de um jogo dentro de uma casa enquanto os inimigos se aproximavam. Talvez algum acontecimento histórico de que agora não me recordo. Mas associei a qualquer outra coisa e fez sentido.
Encontrava-me num estado, em parte parecido à ataraxia.
O fumo dos cigarros fez-me arder os olhos. E aquela atmosfera lembrou-me a geração beat, dos artistas num bar entre uma nuvem de fumo do tabaco. Uma dor de cabeça espreitou, mas apetecia-me escrever. Não o fiz. Era a minha vez de jogar...
Ultimamente as coisas parecem desmoronar em meu redor e seguida desse desmoronamento, a reconstrução. Em nada contribuo. Se calhar o Destino se esteja a encarregar disso. Por algum motivo, isso não me anima. Tudo o que gosto desaparece, e no seu lugar outras coisas fazem a sua aparição, mas nunca me hei de habituar a isso. Tento apenas criar uma barreira a tudo o que é novo de modo a não poder perder mais nada. Nem sempre consigo, apesar de se ter tornado quase um modo de vida.
O jogo terminou e vi, reflectida nele, a minha personalidade.

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